quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Roberto Cabrini estava mesmo errado?

Crimes de encomenda voltam a tomar conta de Imperatriz!

O subtítulo acima parece o prenúncio de um artigo escrito aqui ainda nas décadas de 80 e 90, quando Imperatriz teve o seu ápice, se assim podemos tratar o assunto, da violência comprada, dos crimes de pistolagem.

Mas, por mais que admitir isso possa doer na consciência de quem ama essa terra, infelizmente estamos tratando dos tempos atuais, onde esse tipo de crime volta a assolar ainda mais fortemente nossa cidade.

E não venham aqui nossos jornalistas, a sociedade civil organizada ou até mesmo algum representante político local dizer que essa afirmação é absurda e que o que está acontecendo são fatos isolados, que em nada podem se comparar aos tempos outros, como fizeram a poucos meses o atual prefeito Sebastião Madeira e a subseção local da Ordem dos Advogados do Brasil após o repórter Roberto Cabrini, do SBT, afirmar em rede nacional que vivemos na capital brasileira da pistolagem.


É preciso que assumamos sim o problema na forma como nos apresenta e, assim, unidos, comecemos a pensar as soluções de curto, médio e longo prazo para esse grave problema social que, diga-se de passagem, jamais foi resolvido e que nos dá a sensação de insegurança e leva para o resto do mundo essa contrapropaganda de nossa cidade.

Ver a Ordem dos Advogados do Brasil de Imperatriz sair às ruas para se manifestar contra a declaração de um jornalista de São Paulo a respeito do tema me fez questionar a última vez em que vi essa mesma instituição ir às ruas se manifestar  contra a violência e impunidade que são regras em Imperatriz.

Como uma instituição tão respeitada como essa pode querer “brigar” com um jornalista por conta de um “título concedido” à nossa cidade com base somente nas estatísticas de nossos arquivos policiais?

Aliás, a própria OAB foi vítima direta de um crime desse tipo quando perdeu, ainda em 2005, o advogado Valdecy Ferreira Rocha em um assassinato que chocou a cidade, mas que nunca teve seus mandantes postos atrás das grades.

A verdade é que, enquanto nossa sociedade não aceita mais ser taxada de “pistoleira”, crimes dessa natureza estão acontecendo cotidianamente. Os números chegam a ser assusatadores, pois somente entre os meses de março a junho deste ano ocorreram 07 homicídios com todas as características de crimes encomenda, conforme dados do jornal Correio de Imperatriz.

De lá para cá, pelo menos mais três assassinatos desse tipo voltaram a assustar nossa cidade. O primeiro ocorreu no mês de setembro e teve como vítima Rosélio Silva Diógenes, proprietário de uma loja de distribuição de cimentos na região. Diógenes foi assassinado a tiros dentro de seu próprio escritório de trabalho.

Já no dia 03 de novembro último,  o presidente da Cooperativa de Vans do Tocantins, Juscelino Pereira dos Santos, foi morto, também com tiros à queima roupa, em plena luz do dia nas proximidades do Porto da Balsa.

O último crime ocorreu já na madrugada desta quinta-feira, quando Ronaldo Pinheiro de Sousa foi assassinado na mesma residência onde sua esposa Maria das Graças Costa Alves também havia sido morta em junho por crime de pistolagem.

Como diz o velho jargão, contra fatos não há argumentos. Os números e o notíciários estão aí para comprovar que de fato, hoje, Imperatriz é sim a capital brasileira da pistolagem.

Diante disso, temos dois caminhos a seguir: nos omitimos disso tudo e mascaramos essa dura realidade, e com isso nos conformamos em ficar calados sem o direito de reclamar de nada, ou nos mobilizamos de fato para cobrarmos das autoridades as medidas mais eficazes para que possamos viver com o mínimo de paz.

Sinceramente, acho que o melhor para nós é seguir o segundo caminho e, ao invés de usarmos a hipocrisia para repudiar um jornalista que nos intitulou daquilo que realmente somos, aclamarmos para que a essa mesma imprensa nacional nos preste socorro e mostre ao país o caos em que vivemos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Lembranças de Vovô

No próximo 17 de novembro se completarão seis meses do falecimento de meu avô Jurivê, e a proximidade do Natal e Ano Novo deixa ainda mais forte as lembranças dos momentos especiais que nossa família viveu ao seu lado.

Eu, com neto, recebi de minha avó Leonor o privilégio e responsabilidade de herdar a biblioteca pessoal do Vovô. Após algum breve período dos livros dentro das caixas, resolvi agora que aos poucos, enquanto não estruturo um local adequado aqui em casa, vou ler algumas dessas raridades que ainda não havia lido.

E o primeiro livro que peguei de uma das caixas, sem usar qualquer critério de escolha, foi a autobiografia de Pablo Neruda, escritor chileno ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1971. Folheando o livro antes de começar a lê-lo, encontrei o seguinte trecho destacado por Vovô:

(...) "É verdade que o mundo não se limpa de guerras, não se lava de sangue, não se corrige do ódio. É verdade. Mas é igualmente verdade que nos aproximamos de uma evidência: os violentos se refletem no espelho  do mundo e seu rosto não é bonito nem para eles mesmos. E continuo acreditando na possibilidade do amor. Tenho a certeza do entendimento entre os seres humanos, logrado sobre o sofrimento, sobre o sangue e sobre os cristais quebrados". (...) (Pablo Neruda)

foto tirada no dia do meu casamento
A leitura dessa citação me fez refletir ainda mais sobre o quanto meu Avô foi um homem especial em todos os sentidos permitidos pela vida. Foi um grande filho, esposo, pai, avô, bisavô, advogado, jornalista, enfim, foi grande em tudo o que se determinou a fazer. Mas acima de tudo, meu Avô foi um grande ser humano, uma grande pessoa.

Por nunca ter sido um homem de "muitas posses", como ele mesmo dizia, vez em quando algum contemporâneo seu lhe perguntava o porque um advogado e jornalista das décadas de 60, 70, 80 e 90 não conseguiu ficar rico em Imperatriz, como ocorreu com diversos outros.

Sempre bem humorado e sem rodeios, como lhe era peculiar, a resposta de Vovô era sempre uma só: "todo os dias da minha vida posso colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz".

E assim era realmente que ele pensava. Se satisfazia completamente com o fato de ter conseguido criar todos os seus 12 filhos sem ter perdido nenhum para a malandragem ou outras dificuldades da vida. Sua felicidade passava pela simplicidade das coisas do dia a dia, mas que estavam sempre relacionadas com a presença e união da família: pão com café todas as noites, almoço aos domingos e as infalíveis partidas de baralho com esposa, filhos, netos, genros e noras (que também eram tratados como filhos).

Foi um perseguidor implacável da educação, mas sempre deixou bem claro que mais valeria um analfabeto  com princípios morais bem estabelecidos do que um mestrado sem qualquer compromisso com a honestidade.

A verdade é que meu avô foi um homem inigualável, indescritível e sempre foi e será a maior fonte de inspiração de todos os seus filhos e netos, sem qualquer exceção.

Obrigado Vovô por todos os exemplos de idoneidade, franqueza, amor, responsabilidade e respeito. Tenho a plena certeza que, daí, ao lado de nosso Deus, o senhor continua a guiar nossos caminhos aqui embaixo.